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Hoje eu tomei a decisão de ir embora. Não porque foi fácil, mas porque, sendo muito sincera comigo mesma, a única pessoa que ainda estava ali era eu. Você já tinha ido embora há muito tempo. Eu vi você indo, mas não quis aceitar.


A Ausência e o Ciclo Vicioso


Tudo começou com uma ausência disfarçada de falta de tempo. Depois vieram os términos. As voltas nunca eram iguais. Sempre voltavam mais pesadas, cheias de medos, dúvidas e inseguranças. Qualquer deslize meu era motivo para você ir embora de novo. O ciclo se repetia, e de alguma forma, isso vicia.


Eu tentei dar um nome para tudo aquilo: apego evitativo. Parecia mais fácil assim. Era mais confortável acreditar que existia uma explicação, algo que pudesse ser entendido, resolvido, consertado. A gente gosta de pensar que tudo que é racional tem solução. Mas no fundo, a pergunta nunca foi essa. A pergunta sempre foi se existia alguma forma de fazer alguém voltar a sentir o que já não sente mais.


Enfrentando a Realidade


No fim, eu só estava tentando me proteger da realidade. Mas ela sempre esteve ali, escancarada. No começo, você dava sinais, pequenos, sutis, mas claros, de desinteresse e falta de amor. Eu escolhi não enxergar. E talvez por isso você precisou dizer em voz alta.


Você disse que não queria mais nada. Que não iria voltar e até me pediu para não criar expectativas. Eu deveria ter te escutado. Deveria ter passado pela porta de saída naquele momento, mas eu fiquei.


Fiquei esperando que o tempo mudasse a sua decisão. Acreditei que em algum momento tudo voltaria a ser como antes. Mas a única decisão que mudou foi a minha. Hoje eu entendo que isso precisava acontecer. Eu precisava chegar nesse ponto para conseguir ter um pouco de paz e voltar a viver.


O Peso da Presença


Enquanto você se afastava cada vez mais, eu começava a me sentir um peso. Como se a minha presença fosse um incômodo. Cheguei a pensar que o único motivo de você não ter me bloqueado era porque sabia que eu não tinha feito nada de errado. Apesar de tudo, eu só te ofereci coisas boas: meu carinho, meu cuidado, minha presença.


Talvez isso tenha te mantido ali de forma confortável. Você sabia que, quando quisesse, eu ainda estaria ali. Mas o que você não sabia é que eu também estava me preparando para ir embora. Foi por isso que eu fiquei. Não consegui sustentar essa decisão de uma vez só. Eu precisei de tempo.


A Necessidade de Ir Embora


Nesse tempo, você me machucou tanto que ir embora deixou de ser difícil. Virou necessário. Mas a culpa não foi sua. Você deixou claro várias vezes que não queria mais nada. Fui eu que escolhi não entender.


Então eu fiquei. Fiquei até sentir a sua indiferença. Fiquei até perceber o seu desinteresse. Fiquei até me ver pedindo por atenção. E foi exatamente nesse momento que eu acordei. Entendi que sou uma mulher boa demais para precisar implorar por algo que deveria ser natural.


Porque a dor de não ser escolhida finalmente ficou maior do que o medo de ir embora.


A Decisão de Voltar para Mim


E pela primeira vez, eu não fui embora esperando que você voltasse. Eu fui embora porque finalmente voltei para mim. Essa jornada de autoconhecimento é dolorosa, mas necessária. Cada passo que dou me leva a um lugar mais seguro. Um lugar onde eu posso ser eu mesma, sem medo de ser indesejada.


A vida é feita de escolhas. E hoje, eu escolho a mim. Escolho o meu bem-estar. Escolho a minha paz.


Foto: Pinterest
Foto: Pinterest

O meu problema nunca foi não perceber os sinais. Foi insistir, mesmo percebendo. Eu sempre soube quando algo não estava certo, quando o interesse diminuía, quando o cuidado já não era o mesmo, mas ainda assim eu ficava.


Eu tenho essa mania perigosa de permitir que as pessoas me machuquem aos poucos, de ir tolerando pequenas ausências, pequenas faltas, pequenas decepções, até o ponto em que eu já não me reconheço mais. E, por fim, eu simplesmente deixo de sentir. Não porque passou, mas porque eu já me esgotei.


E o pior é que eu poderia ter evitado. Eu poderia ter desligado o celular naquela noite e ido dormir. Poderia não ter respondido. Poderia não ter ido ao seu encontro. Poderia ter inventado qualquer desculpa simples, dessas que a gente usa quando quer se proteger. Eu sabia o que fazer.


Mas eu não quis.

Eu escolhi conhecer você.


E mesmo com medo, inseguranças e dúvidas, que sempre estiveram ali, eu me permiti sentir. Me permiti gostar, me envolver, criar planos, imaginar futuros e conversar sobre coisas que nem existiam ainda.


Mas em que momento eu achei que isso daria certo?


Talvez no momento em que você também parecia acreditar. Talvez quando suas palavras soavam como certezas.


Só que a realidade sempre esteve ali, quieta, esperando ser encarada.


Você teria que adaptar a sua vida para incluir a minha. E não só a minha, mas a do meu filho também. Não seria mais só você. Não seria mais um apartamento silencioso, organizado, com taças de vidro na estante e garrafas de vinho esperando o fim de semana. Seria uma casa com brinquedos espalhados, com mais cores, mais movimento, mais vida.


Não seria mais silêncio o tempo todo. Seriam risadas altas, perguntas inesperadas, histórias sobre o dia na escola.


Sua mãe ganharia um novo amor. Seus amigos virariam tios, mesmo sem planejar.


E só isso já seria demais pra você.

E tudo bem.


Porque, sendo sincera, também foi demais pra mim fingir que isso não importava.


Foi lindo imaginar. Lindo acreditar que poderia acontecer comigo. Mas não teria como dar certo. E talvez o nosso maior erro tenha sido esse, querer tanto, que ignoramos nossos próprios limites. Eu não olhei pra realidade como estou olhando agora. E você fez parecer que seria simples abrir espaço pra nós na sua vida.


Mas não é.

E tá tudo bem não ser.


Você merece alguém que esteja dentro da sua realidade, do seu momento, do que você consegue oferecer sem medo ou dúvida. E eu mereço alguém que seja firme nas próprias escolhas, que não hesite, que não vá embora quando as coisas começam a ficar reais. Alguém que me traga segurança, estabilidade e que seja capaz de amar não só a mim, mas tudo o que vem comigo.


Porque o amor, quando é de verdade, não divide, ele acolhe.


A gente merece o amor que a gente oferece. E o que a gente sentiu foi grande demais pra caber em espaços pequenos. Obrigada por ter tentado. Mas, dessa vez, eu escolho não me perder tentando também.


Foto: Pinterest
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No começo, amar é barulho bom. Mensagem no meio do dia. Voz presente. Olho atento. Aquela sensação de ser escolhida sem precisar pedir.


Existe troca. Existe vontade. Existe tempo.


E então, sem aviso, algo muda. Não é uma briga. Não é um fim. É um silêncio que cresce devagar. Uma resposta curta. Um “tá bom” onde antes havia conversa. A estranha sensação de estar perto, mas não exatamente junto. A relação continua, mas algo já não sustenta como antes.


Quando a gente se vê pouco e, mesmo à distância, o contato também diminui, nasce um vazio difícil de explicar. Não é carência. É ausência emocional. É gostar de alguém e, ainda assim, começar a se sentir sozinha dentro da própria relação.


E, quase sem perceber, a gente começa a cobrar.


Cobrar presença. Cobrar atenção. Cobrar aquilo que antes vinha espontâneo.


Não porque queremos controlar o outro, mas porque queremos resgatar o que existia no começo. Aquela versão do amor que parecia segura, leve, certa. Mas a cobrança não aproxima. Ela cansa. Quanto mais um pede, mais o outro se recolhe. E quanto mais o outro se recolhe, mais a insegurança cresce. É um ciclo silencioso, que não nasce da falta de sentimento, mas da falta de alinhamento.


Existe uma dor muito específica em amar alguém que fala de futuro, de planos, de promessas, mas ainda não transforma isso em atitudes no presente. A dor de estar incluída nos sonhos, mas ainda não totalmente na vida. De existir nas palavras, mas não no mundo real do outro.


Com o tempo, a gente começa a se perguntar se está pedindo demais. Quando, na verdade, está pedindo o básico para se sentir escolhida.


Talvez amadurecer emocionalmente seja reconhecer quando o amor deixa de ser leve. Quando amar começa a exigir esforço constante de um lado só. Quando ser sincera passa a parecer exagero. Quando falar do que dói vira risco.


Nessa hora, algo precisa mudar.


Às vezes, a mudança não é ir embora. É parar de insistir. Parar de explicar. Parar de correr atrás do que deveria vir naturalmente. É entender que palavras bonitas não sustentam vínculos sozinhas. Que amor precisa de presença, de movimento, de escolha diária, mesmo em dias corridos, mesmo em rotinas cansativas.


Talvez amar também seja saber pausar. Observar. E, principalmente, cuidar de si.


Porque no fim, amor de verdade não se mede pelo que se promete, mas pelo quanto se caminha em direção ao outro. E ninguém deveria precisar implorar para ser incluída na vida de quem diz amar.


Foto: Pexels
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