- 3 de jun.
Talvez eu tenha passado tempo demais tentando descobrir o que havia de errado comigo. Desde menina, eu conheci o peso dos julgamentos. Aprendi cedo que as pessoas sempre têm alguma coisa a dizer sobre quem somos, sobre como deveríamos agir, sentir, falar, amar, ficar ou partir. E, de tanto ouvir, comecei a acreditar.
Talvez eu fosse sensível demais. Talvez falasse demais. Talvez sentisse demais. Talvez precisasse mudar. Melhorar. Ser mais fácil. Mais paciente. Menos intensa. Menos eu.
E assim, aos poucos, fui aprendendo a me colocar sempre no banco dos réus.
Quando alguém se afastava, eu procurava o erro em mim. Quando alguém mudava comigo, eu pensava no que eu poderia ter feito diferente. Quando alguém escolhia ir embora, eu tentava entender onde tinha falhado. E quase nunca me perguntava se aquela pessoa também tinha coisas para mudar, se também havia me machucado, se talvez a partida dela simplesmente fosse uma escolha que eu precisava aprender a respeitar.
Eu sempre quis consertar tudo.
Principalmente aquilo que não dependia só de mim.
Talvez essa seja uma das coisas que mais me cansaram: a sensação de que eu deixo as pessoas me machucarem aos poucos. Não de uma única vez, não necessariamente com grandes acontecimentos, mas em pequenas doses que eu vou engolindo porque tenho medo de perder alguém.
Eu perdoo. Entendo. Justifico. Espero. Dou mais uma chance. Depois outra.
E, quando percebo, já não sei mais em que momento comecei a aceitar coisas que antes me fariam ir embora. Tenho uma dificuldade enorme com despedidas. Talvez porque, para mim, deixar alguém ir nunca tenha sido apenas aceitar uma ausência. Sempre pareceu significar admitir que eu não fui suficiente para fazer aquela pessoa ficar.
E talvez seja justamente isso que eu esteja tentando aprender agora: alguém ir embora não significa que eu fracassei.
As pessoas têm o direito de escolher partir. E eu também preciso aprender a respeitar escolhas que me machucam sem transformar a dor delas em uma sentença contra mim. Nem toda despedida é um julgamento sobre quem eu sou. Nem toda distância significa que eu deveria ter sido diferente. Nem toda pessoa que vai embora precisa ser reconquistada. Às vezes, amar alguém também é aceitar que ela escolheu não permanecer. E, por mais doloroso que seja, existe uma espécie de liberdade em parar de tentar convencer alguém a ficar.
O problema é que, durante muito tempo, eu não soube fazer isso.
Eu achava que precisava ser melhor para merecer permanências. Que, se eu mudasse o suficiente, talvez as pessoas não fossem embora. Que, se eu aprendesse a falar menos, cobrar menos, sentir menos, esperar menos, talvez finalmente alguém escolhesse ficar sem que eu precisasse implorar silenciosamente por isso. Só que existe uma tristeza muito grande em perceber que, enquanto eu tentava não perder os outros, fui perdendo a mim mesma.
Hoje eu olho para mim e sinto falta de uma menina que eu conheço tão bem e, ao mesmo tempo, já não consigo encontrar.
Não sei exatamente quando ela ficou tão cansada. Não sei quando deixou de acreditar que podia simplesmente ser quem era. Só sei que, em algum lugar entre tantas tentativas de agradar, compreender, perdoar e permanecer, eu me tornei alguém que não reconheço completamente. E talvez seja por isso que eu não esteja feliz.
Não porque minha vida seja necessariamente ruim. Não porque eu não tenha motivos para agradecer. Mas porque existe uma diferença enorme entre estar vivendo e estar se sentindo viva dentro da própria vida. Tenho sentido falta de mim. Da minha leveza. Da pessoa que não precisava pensar mil vezes antes de falar alguma coisa. Da menina que talvez também tivesse medo, mas não transformava cada afastamento em uma prova de que havia algo errado com ela.
Quero voltar para ela.
Mas talvez voltar não seja possível. Talvez eu precise conhecê-la de novo. Talvez crescer também seja perceber que algumas versões nossas precisam ficar para trás, não porque eram ruins, mas porque estavam cansadas demais de tentar sobreviver aos julgamentos dos outros.
Eu ainda tenho muito medo de despedidas. Ainda dói quando alguém escolhe partir. Ainda existe em mim aquela vontade quase automática de perguntar o que eu poderia fazer para mudar a decisão. Mas estou tentando aprender uma coisa nova: nem toda pessoa que eu amo precisa permanecer na minha vida para que o que vivemos tenha sido verdadeiro.
Algumas pessoas ficam. Outras partem. Algumas despedidas serão injustas. Outras necessárias. Algumas vão doer por muito tempo. E eu não quero mais transformar cada partida em uma acusação contra mim. Talvez eu não precise ser menos para que alguém fique. Talvez eu não precise me reconstruir inteira toda vez que alguém decide ir embora. Talvez eu possa, pela primeira vez, olhar para mim com a mesma compreensão que sempre ofereci aos outros e dizer: “eu também mereço ser cuidada".
E talvez seja por aí que eu comece a me encontrar outra vez.
Não a menina que eu era antes de tudo isso. Mas uma nova versão de mim, que finalmente aprendeu que permanecer ao lado de alguém não pode significar abandonar a si mesma.



