- 29 de abr.
Queria voltar a ser aquela pessoa segura que eu era antes. Aquela que silenciava o mundo com um simples gesto, desativava notificações, não sentia urgência em responder, não contava minutos esperando resposta. Aquela que não media o próprio valor pelo tempo de uma mensagem e que sabia estar sozinha sem se sentir abandonada. Eu sinto falta da versão de mim que encontrava companhia no próprio silêncio, que tinha energia para ler, escrever, sair ou simplesmente ficar, que se arrumava só para si e que existia inteira.
Mas algo em mim se quebrou no caminho, e não foi de uma vez só. Foram pequenas rachaduras, quase invisíveis, causadas por despedidas sem explicação, por palavras que nunca vieram, por promessas que não se cumpriram. Foram ausências que ecoaram alto demais dentro de mim até que, sem perceber, comecei a me perder.
Hoje eu me reconheço menos. Me tornei mais ansiosa, mais inquieta, sempre esperando o pior. Porque depois de tantos abandonos, a gente começa a acreditar que o problema é com a gente. Que existe algo em nós que faz as pessoas irem embora. Que nunca somos o suficiente para alguém ficar.
E então, quando alguém chega, você não acolhe, você se apega. Segura com força, com medo, com desespero. Não porque ama de forma leve, mas porque teme o vazio que vem depois. E é aí que tudo começa a doer mais, porque aos poucos você se molda, se diminui, se cala. Você aceita menos do que merece e ainda agradece, como se aquilo fosse tudo o que você pode ter. Vai se encaixando onde não cabe só para não ser deixada para trás, sem perceber o quanto está se abandonando no processo.
É uma dor silenciosa, daquelas que não gritam, mas consomem. Você vai desaparecendo devagar enquanto tenta manter alguém que, no fundo, nunca teve a intenção de ficar. E no final, ele vai. Sempre vai. Porque ninguém fica quando não quer, e nenhuma versão sua, por mais perfeita ou adaptada, é capaz de fazer alguém escolher permanecer.
E então sobra você, de novo, com a sensação sufocante de que tudo se repete, de que todo começo já carrega um fim anunciado, de que amar é inevitavelmente perder. O mais cruel é que chega um momento em que você já espera o abandono. Você testa, provoca, força limites, como se precisasse confirmar mais uma vez que está certa, que ninguém fica.
E isso cansa de um jeito que não dá para explicar. Cansa viver em alerta, cansa não conseguir confiar, cansa carregar um vazio que parece ter criado raízes.
Mas mesmo em meio a tudo isso, existe algo que ainda pulsa. Uma parte sua que não desistiu, que ainda lembra, mesmo que distante, de quem você já foi. E essa parte não morreu. Ela está ferida, está escondida, está cansada, mas ainda é você.
Talvez o mais difícil, e ao mesmo tempo o mais bonito, seja entender que você não precisa voltar a ser quem era antes, porque você não é mais a mesma. Você é alguém que sobreviveu, que sentiu demais, que tentou demais, que permaneceu mesmo quando tudo dentro gritava para desistir.
E talvez o recomeço não esteja em recuperar a antiga versão, mas em aprender, aos poucos, a se acolher com mais delicadeza, a não se abandonar por medo de que o outro vá embora, a perceber que a única permanência que você realmente precisa é a sua.
Porque, no fim, a maior ausência que você já sentiu não foi a de quem partiu, foi a sua própria. E quando você finalmente se reencontrar, quando você escolher ficar, mesmo nos dias difíceis, você vai entender, com o coração cheio e os olhos marejados, que nunca foi sobre fazer alguém ficar, era sobre você nunca mais ir embora de si mesma.
