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Quase terminei um relacionamento que está dando certo porque, por alguns instantes, acreditei que não estava sendo amada o suficiente. Pelo menos não da forma como eu idealizei. Mas, no fundo, não era falta de amor. Era medo.


Depois de tanto tempo sendo machucada, algo muda dentro da gente. Criamos traumas silenciosos, barreiras invisíveis, defesas que parecem proteção, mas que às vezes afastam exatamente aquilo que poderia ser bom. O medo não desaparece em poucos meses. Hoje eu entendo isso.


Ele passou o Natal comigo. Abriu mão do conforto de não se preocupar com datas comemorativas. Conseguiu uma folga no trabalho para passar o Ano Novo ao meu lado em um acampamento que ele pesquisou, organizou e pagou sozinho. Depois, ainda se dispôs a trabalhar no sábado para compensar a ausência. Será que alguém faz tudo isso sem amor?


Mas então a mente começa a brincar comigo.


Ele me deu boa noite com um coração amarelo. Amarelo, não vermelho. E por que não vermelho? Aos poucos, cores passam a ter significados perigosos na minha cabeça. O amarelo virou menos paixão. Menos intensidade. Menos amor.


Naquele dia, ele me chamou de amor menos vezes. Houve menos eu te amo na conversa. O tom pareceu diferente. Mais contido. Não tão expansivo quanto de costume.


Postei duas fotos arrumada para ir a um barzinho de rock. Ele não comentou. Não reagiu. Apenas seguiu o dia. Outros homens comentaram, elogiaram, flertaram. Mas o único comentário que importava, o dele, não apareceu. No meio da multidão, ele parecia ausente.


E então surgiu a pergunta mais perigosa de todas. Isso é intuição ou paranoia?


Talvez ele esteja distante. Talvez esteja sentindo menos. Talvez não queira falar. Ou talvez nada disso esteja acontecendo. Talvez tudo exista apenas dentro da minha cabeça, alimentado por experiências antigas, por abandonos mal cicatrizados, por histórias que não terminaram bem.


Quando carregamos feridas, começamos a interpretar qualquer silêncio como rejeição. Qualquer mudança de tom como desinteresse. Tentamos controlar o sentimento do outro. Procuramos respostas que talvez nem existam. E, sem perceber, transformamos o medo em ação impulsiva. A ansiedade em decisão. A dúvida em fim.


Quase terminei algo que ainda está em construção.


O amor não é feito apenas de provas grandiosas todos os dias. Ele mora também na constância, no cuidado silencioso, na escolha repetida de ficar. Amor não se mede por emojis nem pela quantidade exata de eu te amo em uma conversa. Amor se constrói no tempo. Na paciência. No espaço que damos para o outro ser humano ser quem é. E para nós mesmas também.


Hoje eu não terminei.

Hoje eu respirei.

E isso, por enquanto, é o suficiente.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

  • 17 de dez de 2025

Há dores que não gritam. Elas se repetem em frases ditas com naturalidade, em olhares que julgam, em palavras que continuam ecoando quando a casa silencia.


Este foi o ano em que descobri que a ferida mais profunda não veio do mundo lá fora, mas de alguém que carrega o mesmo sangue que eu.


Passei meses ouvindo que eu não era suficiente. Que eu era uma péssima mãe. Que meu filho teve azar por ter nascido de mim. Que alguém que nunca gerou, nunca pariu, nunca perdeu o sono, nunca sentiu o medo diário de errar… seria melhor do que eu.


Essas palavras não ficaram no ar. Elas se alojaram em mim. Feriram minha autoestima, bagunçaram minha saúde mental e me fizeram duvidar do amor mais puro que existe dentro de mim, o amor de mãe.


O que mais dói é a contradição. Apesar de tudo, ela é uma boa tia. E isso confunde. Porque como alguém consegue cuidar tão bem de uma criança e machucar tão profundamente a mãe dela? Passei muito tempo tentando entender. Tentando suportar. Tentando ser forte por acreditar que família é algo que se aguenta, mesmo quando dói.


Mas chega um momento em que sobreviver exige uma escolha.


Este ano, pela primeira vez, decidi não passar o Natal e o Ano Novo ao lado dela. Não por ódio. Não por vingança. Mas por amor. Amor por mim. Existem afastamentos que não são abandono, são sobrevivência. Existem silêncios que não são frieza, são cura. E existem decisões que doem, mas salvam.


Aprendi que proteger a minha saúde mental também é proteger o meu filho. Porque uma mãe em pedaços tem dificuldade de se reconhecer, e uma mãe que se perde não consegue ensinar amor inteiro.


No próximo ano, eu escolho cortar o que me machuca. Escolho limites no lugar da culpa. Escolho paz no lugar de explicações. Escolho lembrar que ninguém pode definir o valor de uma mãe que acorda todos os dias tentando fazer o melhor, mesmo com o coração cansado.


Eu não deixei de amar. Mas aprendi que amar não pode significar me destruir. E isso também é maternidade.


Foto: Freepik
Foto: Freepik

Ele disse que estava confuso. E, pela primeira vez, eu precisei ser clara. Não porque eu quisesse ir embora, mas porque ficar, naquele momento, significava me perder.


A confusão dele não veio em forma de frieza. Veio em cuidado. Em carinho. Em palavras bonitas que não sabiam para onde ir. Veio em promessas suaves, mas sem chão. E eu entendi. Entendi demais.


Entendi o medo.

Entendi o passado.

Entendi traumas que não eram meus.


Mas chegou um ponto em que entender começou a doer. Porque amar alguém confuso é aprender a silenciar as próprias certezas. É diminuir o passo, a expectativa, o coração, sempre para não assustar. E, quando a gente percebe, já não está vivendo. Está esperando.


Quando ele disse que estava confuso, eu não enxerguei desamor. Vi alguém que ainda não sabia ficar. E eu precisava de alguém que soubesse. Terminar não foi um gesto de orgulho. Foi um gesto de respeito comigo.


Eu não fui embora porque não existia sentimento. Fui embora porque havia sentimento demais para caber em um lugar sem nome. Dói sair quando ainda existe vontade de ficar. Dói escolher a si mesma quando o outro ainda ocupa espaço. Dói aceitar que carinho, sozinho, não sustenta tudo.


Mas existem despedidas que não são rejeição. São cuidado.


Eu terminei porque não queria ser o tempo de espera de alguém. Nem o lugar seguro onde o medo do outro se esconde. E talvez, um dia, quando ele organizar a própria confusão, entenda.


Eu não desisti dele.

Eu me escolhi.


Foto: Freepik
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